des mapear

Eu costumava fazer a lição de casa sobre a mesa de jantar. Certa vez, por volta dos dez anos de idade, me vi às voltas com uma tarefa que consistia em desenhar um mapa. Do mapa lembro quase nada. O que não esqueço é o prazer de manusear a folha de papel carbono roxa para copiar o desenho diretamente de um dos volumes da Grande Enciclopédia Delta Larousse. Foi assim que pela primeira vez o estudo da geografia virou uma desculpa para uma experiência boa: desenhar e colorir. Enquanto eu ignorava completamente a disciplina e me deleitava com o processo do desenho, meu pai parou ao meu lado, olhou para o que eu estava fazendo, apontou para algumas regiões do mapa e disse:

– Eu já estive aqui, aqui e aqui. Você está aí desenhando este mapa mas não conhece nada sobre estes lugares.

O comentário de alguma forma me abalou e acredito que foi este choque que fez com que eu me apaixonasse pela geografia. A provocação de meu pai, um imigrante que alicerçou sua vida nas constantes viagens que realizou para ganhar seu sustento, me fez ver a diferença entre “desenhar” e “viver” o mapa. A partir de então me comprometi a conhecer os lugares representados ao invés de apenas memorizar informações cartográficas. Decidi que eu deveria viver os lugares para depois criar meus próprios mapas e, assim, passar a propor outras geografias, por meio da arte ou não, com base nas minhas próprias experiências e narrativas de/no/com o mundo. Mas viver vem antes, viver sem nenhuma outra intenção a não ser esta: estar presente nos processos do viver.

 

Santa Catarina, meados de 1978