Cintila

Olho para cima. Uma árvore lança-se ao céu movida pelo desejo verde de unir sua copa às nuvens. O sol passa entre as folhas e lampeja raios dançantes. Lantejoulas invadem a paisagem, cintilantes. Tudo é fofura, parênquima, cor, textura. Sacudo meus braços pequeninos com vistosas ganas infantis: quero o brilho todo só para mim. 

Na piscadela seguinte, miro a pequena casa de madeira que está mais à frente. Azul. Meus olhos curiosos percorrem os três degraus vermelhos e encontram uma mulher velha parada à porta. Espera. De onde estou não vejo o seu rosto, mas sei que está a sorrir debaixo de seus cabelos de algodão. O tempo se arrasta enquanto minha mãe caminha em direção à casa. Um passo, outro e mais outro: estamos no mesmo lugar. Quebranto. Daquela porta, passagem entre mundos, a velha derrama bênçãos à distância sem precisar tocar nossas testas com ramos de arruda. Sua reza ancestral ecoa em cada letra que aqui acomodo na tentativa de voltar àquele lugar. Mas não há volta. Assim como o sol reluz ao atravessar a árvore vertiginosa da memória, quero que as palavras chispem entre linhas como quem evoca as graças da benzedeira. 

Árvore, nuvem, vórtice. 
Mulher, morada, oração. 

É do cerne desta lembrança primordial, gestada no colo de minha mãe, que vivo a oscilar entre sonho e vigília. Não mencionei antes, mas atrás de nós havia um trilho. Linhas paralelas que se encontram no infinito, como o passado e o futuro. O presente é túnel escuro onde, vez por outra, produzo uma centelha. Cura. O trem, urgente, é o veículo do nunca-chegar. Dormente. Vagão a vagar, em devaneio, busca a luz enquanto flerto com a sombra. 

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