15OUT2021

Um senhor entra na loja de capas para celular:
– Moço, tira tudo essas músicas do pendrive, nenhuma presta.

O vendedor:
– Mas nem do Raul Seixas o senhor gostou?

– Não. Tira tudo. Coloca aí Amado Batista e Roberto Carlos, mas só dos anos 60 até 1990. Coloca 50 reais de música.

Enquanto isso, Alexandre espera o xerox ficar pronto.

Uma mulher usando máscara de tecido (com buraquinhos para respirar) entra na loja:
– Boa tarde, minha filha ganhou este tablet da avó mas a menina só usa celular e computador. Você compra tablet, moço? Tá novo.

O vendedor:
– Deixa eu dar uma pesquisada na internet.

Alguns minutos depois:
– 50 reais?

– Nãoooo moço, vale mais né! É da samsung!

– Tá, vou ter que ligar pra uns lugares, peraí.

Ao mesmo tempo, o senhor do pendrive se despede:
– Meu filho, você é o melhor vendedor de Goiânia!

O xerox fica pronto.

Copiosos e singulares dias de pandemia.

Fotoetnografar origens

[Para André e Ana Elisa]

Chavela Vargas canta e não posso me concentrar: El último trago, e olha que nem posso beber. É a dor de garganta que perdura, COVID no te quiero. Queria mesmo é contar sobre Galeano, se Chavela deixar.

Anteontem vasculhei cantos e prateleiras em busca do Livro dos Abraços. Queria reler A função da arte/1 para rememorar imensidões que não cabem no olhar.  Ao abrir o livro, encontrei Clara Cuevas, bem latino-americana, desejando-me ¡suerte! Era agosto de 2007, petit pavê em desordem no Largo diante do Fire Fox. Disseram-se há pouco que não sou do lugar de onde nasci. Não protestei. E Clara ainda está no México.

Há dois dias ouvi histórias sobre o ser-caiçara emergente na vida de um menino. Vir-a-ser em imagens das idas e vindas sobre as águas de Cananéia. Ele, o menino, encontrou histórias de lugares mais para lá e mais para cá, deslocamentos líquidos que desmancham bordas entre São Paulo e Paraná.

Ali, onde vivem homens e mulheres, bisavôs e bisavós, as imagens produzidas por netos e bisnetos formam constelações. Luzes sinalizam passados inalcançáveis e elas, as imagens, aproximam-se umas das outras em resposta ao apelo navegante: – Me ajuda a lembrar!

Intemperismo

Pedro estava cansado. Foram quarenta e cinco anos de trabalho. Após a morte da mulher, há oito meses, decidiu que não produziria mais. Fechou o ateliê. Nada de amigos, exposições ou imprensa.
Mas hoje o artista acordou diferente.
Levantou-se da cama num pulo, como quem desperta de um pesadelo. Tomou uma ducha, desceu as escadas, bebeu seu café expresso. Dirigiu-se ao galpão onde fica a oficina de escultura. Empurrou a porta de entrada e deu de cara com o bloco de mármore que continua ali, intocado. Aproximou-se dele e rememorou o período insano vivido na Itália. Naqueles tempos mediterrâneos da sua juventude, beijou bocas, levou surras, desviou da morte, apaixonou-se pela arte. Tudo isso durante os anni di piombo, nos anos 1970. Passou os dedos pelos veios da pedra e se perguntou como pôde sentir tanta vida em meio ao terror das bombas e assassinatos daquela década.
Pegou o cinzel esquecido sobre uma das bancadas. Encaixou a ferramenta nas mãos como quem recupera uma parte perdida do corpo. Levantou os olhos e encarou o arsenal de instrumentos e maquinários que acumulara ao longo da vida, mas que agora estavam abandonados, à espera de movimento. Ao vistoriar o espaço, foi surpreendido por uma echarpe vermelha sobre a poltrona verde-oliva, à janela. Sentou-se ali mesmo e chorou diante do vestígio inesperado de Ana. Suas lágrimas se misturavam à poeira do estúdio e se transformavam em soluços, cada um deles para uma falta: do suor, do arfar, do corpo forte do homem que enfrentou, na lida diária, a rusticidade do material que escolheu para amar: rochas. […]

*Este conto continua na página 233 da antologia organizada por Tiago Novaes no âmbito do Curso Introdução à Escrita Criativa, realizado entre os meses fevereiro e junho de 2021, on-line.

NOVAES, Tiago (org). Café da manhã no fim dos tempos [Antologia] São Paulo: Dedalus, 2021.

Para adquirir o livro: https://dedalus.minestore.com.br/produtos/cafe-da-manha-no-fim-dos-tempos

A máquina de lembrar

— Um cinema. Entrei e já estava escuro. Na tela, imagens de objetos. Às vezes pareciam fotografias, outras vezes desenhos. Tudo em preto e branco. Depois de me concentrar por algum tempo no filme, olhei para os lados. Descobri que também deveríamos reparar nas sombras que estavam sendo projetadas pelo filme, nas paredes laterais da sala. Levantei. Minhas mãos tinham vida própria e apontavam para as sombras nas quais eu deveria prestar atenção. Parecia que o filme agora estava sendo projetado dentro da minha cabeça. Cada sombra para qual eu olhava trazia lembranças de um passado distante, uma era do século XVIII, outra do começo do século XX. Entendi que eu estava dentro de uma máquina de lembrar. E lembrar doía. 

— Nossa, que louco!

— E tem mais! Olhei para a tela de novo e percebi que o filme continuava sem parar. No filme agora havia duas mãos vestidas com luvas brancas de cetim, elas seguravam um frasco delicado de perfume. Enquanto uma das mãos abria o frasco, a outra esperava que a gota da essência oleosa caísse. Eu estava no fundo da sala e senti o cheiro do filme como se fosse um gosto ardido bem no fundo da minha garganta. O sabor era acastanhado, parecia algo com a cor do mogno. Fiquei assustada. Saí do cinema pela porta dos fundos. Então, segui a calçada espiralada que me levou a uma rampa. Subi. Passei por um jardim cheio de cactos. Um homem com os cabelos pretos compridos me chamou para pegar numa escultura porosa que mais parecia um coral, como aqueles da praia, sabe? Ela estava bem no centro do jardim, e brilhava! O homem me disse que, se eu a tocasse, lembraria de tudo o que já havia esquecido, desde todas as minhas vidas passadas. Foi aí que coloquei logo as duas mãos sobre aquela coisa porosa e uma luz esverdeada tomou conta de todo o espaço. Fechei os olhos e me concentrei bastante para lembrar de tudo. Aí acordei.

— Ah, não, mãe! Não conseguiu lembrar de nada? Que droga!

— Infelizmente não, Maria. Resultado: continuo sem saber quem eram o pai e a mãe da sua avó. Não recebi nenhuma pista. Como lhe disse, mamãe foi dada ainda bebê para uma família de fazendeiros. Não sei nada sobre a nossa história, ninguém sabe. 

Mariane e sua filha permaneceram imersas no silêncio, deitadas sobre as almofadas espalhadas pelo chão da sala. Maria olhava para a janela, preocupada com as árvores que balançavam com violência. 

— Vem chuvona por aí, mãe. Vou fechar a janela.

— Temporais, gosto tanto deles. Devastadores. Sinto como se fossem mensageiros tentando nos acordar de um sono profundo. Por isso amo os trovões, os relâmpagos, como se fossem lampejos de memória disse a mãe ao esticar o corpo. 

Mariane aproximou os pés do aquecedor elétrico e ficou admirando o alaranjado radiante emitido pela resistência do aparelho. Aquela era a única fonte de luz no ambiente. A penumbra se projetava em cada canto da sala à medida que a luz do dia ia se apagando. 

— Mãe, ouvi a campainha. Acho que a vovó chegou.

— Desce lá para abrir a porta, Maria. Rápido, pois está ventando muito. Cuidado com as escadas.

Maria saiu aos pulos para receber a avó. Mariane se levantou e antes de desligar o aquecedor, observou a própria sombra multiplicar-se sobre as paredes da sala. Acenou para elas. Sentiu-se acolhida de alguma forma pelo calor de sua linhagem materna. Acendeu a luz da sala e as sombras se foram. 

Desceu as escadas e deu um abraço demorado na mãe e na filha. Ao som da chuva forte, foram todas para a cozinha. Abriram uma garrafa de vinho, retiraram o assado do forno e brindaram ao ingresso de Maria no curso de História. 

— À Maria! Primeira mulher da família a ingressar numa universidade!