Cintila

Olho para cima. Uma árvore lança-se ao céu movida pelo desejo verde de unir sua copa às nuvens. O sol passa entre as folhas e lampeja raios dançantes. Lantejoulas invadem a paisagem, cintilantes. Tudo é fofura, parênquima, cor, textura. Sacudo meus braços pequeninos com vistosas ganas infantis: quero o brilho todo só para mim. 

Na piscadela seguinte, miro a pequena casa de madeira que está mais à frente. Azul. Meus olhos curiosos percorrem os três degraus vermelhos e encontram uma mulher velha parada à porta. Espera. De onde estou não vejo o seu rosto, mas sei que está a sorrir debaixo de seus cabelos de algodão. O tempo se arrasta enquanto minha mãe caminha em direção à casa. Um passo, outro e mais outro: estamos no mesmo lugar. Quebranto. Daquela porta, passagem entre mundos, a velha derrama bênçãos à distância sem precisar tocar nossas testas com ramos de arruda. Sua reza ancestral ecoa em cada letra que aqui acomodo na tentativa de voltar àquele lugar. Mas não há volta. Assim como o sol reluz ao atravessar a árvore vertiginosa da memória, quero que as palavras chispem entre linhas como quem evoca as graças da benzedeira. 

Árvore, nuvem, vórtice. 
Mulher, morada, oração. 

É do cerne desta lembrança primordial, gestada no colo de minha mãe, que vivo a oscilar entre sonho e vigília. Não mencionei antes, mas atrás de nós havia um trilho. Linhas paralelas que se encontram no infinito, como o passado e o futuro. O presente é túnel escuro onde, vez por outra, produzo uma centelha. Cura. O trem, urgente, é o veículo do nunca-chegar. Dormente. Vagão a vagar, em devaneio, busca a luz enquanto flerto com a sombra. 

cut-cut

Londres, 7 de fevereiro de 2015, noite fria.

O homem coçava os ombros por dentro da blusa de lã verde-musgo. Seu pescoço, ardido, sustentava uma cabeça cheia de feridas. Do ombro, o sujeito elevava as mãos às cascas do couro cabeludo. Arrancava pedaços, olhava para as unhas e as levava à boca. Então, voltava aos ombros e o processo recomeçava: cut-up, cut-up, cut-up. O sangue brotava tímido debaixo do cabelo máquina-um. Finalmente, a palestra começava.

Disseram que William Burroughs sentia estar possuído por algo obscuro que lhe acometia a vontade. Um dia, reconheceu ter matado toda mulher que amou e, ao dizê-lo, chorou. Andou pela América do Sul e entregou-se ao xamanismo. Sabia dos spells, das bruxas, mas preparou escritas e rituais de homem para homens. Para aliviar a culpa, tratou as mulheres que lhe restaram com uma delicadeza fria: cut-out, cut-out, cut-out.

Enquanto o homem à minha frente coçava e coçava, o outro, na frente dele, dormia sentado e roncava: cut-in, cut-in, cut-in. Burroughs, em espírito, perambulou entre as cadeiras e atrapalhou a concentração dos ouvintes. Infernizou a audiência, causou microfonia e falhas na projeção. Não fiquei para os drinques, mas senti cheiro de enxofre e gosto de álcool na volta para casa. Ao chegar, rascunhei estas notas para não esquecer do evento de hoje, na October Gallery: Barry Miles, cut-ups as a revolutionary weapon.