15OUT2021

Um senhor entra na loja de capas para celular:
– Moço, tira tudo essas músicas do pendrive, nenhuma presta.

O vendedor:
– Mas nem do Raul Seixas o senhor gostou?

– Não. Tira tudo. Coloca aí Amado Batista e Roberto Carlos, mas só dos anos 60 até 1990. Coloca 50 reais de música.

Enquanto isso, Alexandre espera o xerox ficar pronto.

Uma mulher usando máscara de tecido (com buraquinhos para respirar) entra na loja:
– Boa tarde, minha filha ganhou este tablet da avó mas a menina só usa celular e computador. Você compra tablet, moço? Tá novo.

O vendedor:
– Deixa eu dar uma pesquisada na internet.

Alguns minutos depois:
– 50 reais?

– Nãoooo moço, vale mais né! É da samsung!

– Tá, vou ter que ligar pra uns lugares, peraí.

Ao mesmo tempo, o senhor do pendrive se despede:
– Meu filho, você é o melhor vendedor de Goiânia!

O xerox fica pronto.

Copiosos e singulares dias de pandemia.

Descortinar

Do quarto, olho para a luz do sol sobre o muro. Sei que horas são sem precisar de relógio. Calculo os atrasos de acordo com a posição da sombra. Quando não há sol, não marco o tempo.

É domingo. O muro diz que já passa das oito. Viro-me na cama para escutar melhor o vento e me dou conta de que preciso varrer a calçada. Chuto o travesseiro enquanto ouço calangos, corruíras, pardais e rolinhas a atravessar os montes fofos de folhas. Cada um marca o tempo à sua maneira, no seu ritmo, de acordo com a sua densidade.

Um beija-flor costumava me visitar diariamente, há meses. Ele cruzava o corredor antes mesmo da luz do sol tocar o muro. Não eram nem seis e meia da manhã e ele já estava ali, anunciando-se como um zangão pelo zumbir de suas asas. Sinto sua falta.

Passo o café. Para acompanhar, alguns poemas. Antes de iniciar os trabalhos do dia, deixo-me levar por incontáveis pensamentos. – O que ainda estou a fazer nesta cidade?

Vejo algo cruzar a garagem de ponta a ponta. Um tiro. O projétil faz uma curva perfeita e para diante de mim. Suspenso. Através da janela sem cortinas, vejo a resposta se materializar num verde cintilante. Mágica. Luminosa. No segundo seguinte, o beija-flor lança-se ao pé de hibisco.

O sol tardio imprime os seus raios na parede da sala.

Sei exatamente que horas são: – Hora da partida.

cut-cut

Londres, 7 de fevereiro de 2015, noite fria.

O homem coçava os ombros por dentro da blusa de lã verde-musgo. Seu pescoço, ardido, sustentava uma cabeça cheia de feridas. Do ombro, o sujeito elevava as mãos às cascas do couro cabeludo. Arrancava pedaços, olhava para as unhas e as levava à boca. Então, voltava aos ombros e o processo recomeçava: cut-up, cut-up, cut-up. O sangue brotava tímido debaixo do cabelo máquina-um. Finalmente, a palestra começava.

Disseram que William Burroughs sentia estar possuído por algo obscuro que lhe acometia a vontade. Um dia, reconheceu ter matado toda mulher que amou e, ao dizê-lo, chorou. Andou pela América do Sul e entregou-se ao xamanismo. Sabia dos spells, das bruxas, mas preparou escritas e rituais de homem para homens. Para aliviar a culpa, tratou as mulheres que lhe restaram com uma delicadeza fria: cut-out, cut-out, cut-out.

Enquanto o homem à minha frente coçava e coçava, o outro, na frente dele, dormia sentado e roncava: cut-in, cut-in, cut-in. Burroughs, em espírito, perambulou entre as cadeiras e atrapalhou a concentração dos ouvintes. Infernizou a audiência, causou microfonia e falhas na projeção. Não fiquei para os drinques, mas senti cheiro de enxofre e gosto de álcool na volta para casa. Ao chegar, rascunhei estas notas para não esquecer do evento de hoje, na October Gallery: Barry Miles, cut-ups as a revolutionary weapon.