De 2012 a 2016, desenvolvi uma pesquisa artística de doutorado no Chelsea College of Arts, University of the Arts London (CCW/UAL). Sob a supervisão de David Cross, Hayley Newman e Linda Sandino, investiguei uma prática artística ativada por experiências de deslocamento e desarticulação da língua como potencial lugar de enunciação para decolonial selves. Nesse sentido, a pesquisa integrou práticas individuais e coletivas realizadas com um grupo de mulheres brasileiras que viviam em Londres. Os desafios diários em lidar com a língua inglesa ativaram processos de escrita em meu trabalho visual, o qual se transformou num lugar para criar vozes bilíngues e fragmentárias em resposta à mudez inicial na qual me encontrei quando cheguei em Londres. Por meio de fotografia, gravura, desenho, postais e livros de artista explorei gêneros de escrita de vida tais como o diário, o language memoir e a correspondência explorando uma consciência imigrante e buscando cultivar vozes singulares, com sotaque. Assemblagem de palavras e imagens bem como o deslocamento de seus sentidos foram estratégias usadas para expandir vocabulários limitados. Neste fazer, a língua passou de obstáculo intransponível a território criativo para explorar formas de saber histórias e escrever narrativas. Esta pesquisa é orientada por conceitos de espaço e lugar abordados pela geografia humanista e feminista, bem como pelas escritas de vida pós-coloniais, pelo pensamento de fronteira, a arte transnacional, o accented cinema, a poesia visual, a arte conceitual e a arte socialmente engajada. Além disso, a investigação oferece insights sobre a língua inglesa na vida de mulheres brasileiras em Londres e lança um olhar sobre a prática artística como lugar de enunciação para decolonial selves.
Foi através desta pesquisa de doutorado que iniciei as aproximações entre as Artes Visuais, os Estudos Auto/Biográficos e os Estudos Decoloniais, sob a perspectiva da pesquisa em arte, ou seja, das investigações em poéticas artísticas e processos de criação. A tese se torna, dentre muitas coisas, espaço de elaboração de um percurso e marco inicial para a próxima jornada: 1) Através da escrita da tese, pude elaborar assuntos que vinham me movendo desde a infância até um momento muito específico da minha formação em nível de graduação, quando cursei a disciplina GB022 Estudos de Percepção em Geografia, ministrada pela professora Salete Kozel, em 2002, na UFPR, ao mesmo tempo que era graduanda do curso Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas, na FAP/PR. Ali, pela primeira vez, vi a possibilidade de conectar arte à geografia a partir das experiências de vida e, na tese, busquei articular esse pensamento a uma prática artística que emergiu em contexto de deslocamento; 2) A tese, quando pronta, transformou-se em marco inicial para importantes desdobramentos de ações e reflexões artísticas, investigativas e pedagógicas que passaram a nutrir o que passei a chamar de poéticas de (auto) localização, instauradas no contexto de uma prática artística como inscrição de si criticamente situada em meio aos deslocamentos.
Após o regresso ao Brasil, em outubro de 2016, retomei as atividades na Faculdade de Artes Visuais (FAV) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Engajei-me em movimentos institucionais que levaram ao florescimento das principais questões apontadas durante a pesquisa de doutorado. Daí, muitos frutos nasceram: cadastrei o projeto de pesquisa PV01208-2017 Práticas Artísticas Autobiográficas: intersecção entre prática artística, escritas de vida e decolonialidade (2017 até o presente), criei o grupo de pesquisa Núcleo de Práticas Artísticas Autobiográficas – NuPAA/UFG/CNPq (2017 até o presente), propus um olhar para a Autobiogeografia como estratégia decolonial nas artes visuais (2017), criei as disciplinas FAV0751 Laboratório de Práticas Autobiogeográficas (2018 – graduação) e ACV1667 Tópicos especiais em arte e visualidades: Atos Autobiográficos e Práticas Decoloniais nas Artes Visuais (2019 – pós-graduação), exercitei um deslocamento da pesquisa (auto)biográfica da área da educação para a área de artes, propondo a Pesquisa Autobiográfica em Arte (2021) como abordagem de pesquisa (auto)biográfica centrada no fazer artístico, em suas operações, processos, materialidades e imaterialidades.
Leia a tese de doutorado aqui: Language and place in the life of Brazilian women in London: writing life narratives through art practice
Resultados artísticos da pesquisa:

















